Ciclismo: a pauta que não tem inimigos — e por isso não tem dono
- pedropgno
- há 6 dias
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Ninguém é contra o esporte. Mas ninguém faz dele uma prioridade.
Às vezes imagino o DF como se imagina uma cidade estrangeira que nem conheço. Não como ela é, mas como poderia ser. Na minha cabeça, Brasília aparece cheia de ciclovias contínuas, largas, bem cuidadas. Pessoas pedalando para o trabalho, crianças indo para a escola, famílias cruzando parques e eixos como quem atravessa um bairro — não como quem enfrenta um obstáculo. Algo parecido com Amsterdã, mas com céu aberto, árvores retorcidas e o concreto modernista que insiste em lembrar que espaço nunca foi o nosso problema.

Essa Brasília ainda não existe. Mas ela também não é um delírio.
O curioso é que quase todo mundo concorda com ela. Quando se fala em esporte, saúde, qualidade de vida, ninguém torce o nariz. Não há oposição organizada contra ciclovias. Não existe lobby anti-bicicleta. Não há discursos inflamados contra pessoas pedalando. O ciclismo é, talvez, uma das raras pautas públicas que não despertam rejeição. E justamente por isso, paradoxalmente, nunca vira prioridade.
O esporte vive numa espécie de consenso inofensivo. Todos são a favor — desde que fique para depois.
Enquanto isso, a cidade continua organizada para o sedentarismo. O cotidiano urbano segue desenhado para longos deslocamentos motorizados, para o tempo perdido no trânsito, para o corpo parado. A consequência aparece onde sempre aparece: nos índices de doenças crônicas, nos gastos crescentes com saúde pública, na sensação difusa de cansaço coletivo. A conta do sedentarismo não chega em forma de multa nem de imposto visível; ela chega diluída, silenciosa, em remédios contínuos, exames recorrentes, hospitais cheios, defasagem de enfermeiros e médicos.
Investir em esporte — especialmente no ciclismo urbano — é fazer exatamente o caminho inverso. É trocar o tratamento pelo movimento. A cura pela prevenção.
Há dados suficientes mostrando que cidades que estimulam a mobilidade ativa reduzem custos em saúde, aumentam produtividade e melhoram indicadores de bem-estar. Mas, mesmo sem estatística alguma, basta observar a lógica elementar: uma população que se move adoece menos do que uma população que passa horas sentada dentro de um carro.
E o ciclismo tem algo a mais. Ele não é só saúde. Ele é também economia.
Onde há ciclovia, surgem oficinas, bike shops, cafés de esquina, floriculturas, pequenos comércios. O ciclista não atravessa a cidade como um projétil: ele para, olha, consome, ocupa o espaço urbano. Em Brasília, isso é ainda mais evidente. Quadras comerciais podem ganhar vida, parques precisam se conectar, o Lago deixará de ser destino esporádico e vira percurso cotidiano. O ciclismo gera serviços, empregos e oportunidades com um investimento público baixo quando comparado a grandes obras superfaturadas.
É uma pauta estranhamente completa. Une empreendedorismo, saúde, qualidade de vida e mobilidade urbana. Uma coalizão improvável num cenário político acostumado a discutir tudo em compartimentos isolados.
Talvez seja justamente esse o problema.
O ciclismo não cabe bem nas gavetas tradicionais. Não é só transporte. Não é só esporte. Não é só lazer. Não é só saúde pública. Ele atravessa todas essas áreas — e, ao atravessá-las, acaba não sendo plenamente assumido por nenhuma. Fica sempre no meio do caminho, elogiado nos discursos e esquecido nas prioridades orçamentárias.
Brasília sente isso de forma particular. Há ciclovias, mas elas não conversam entre si. Há trechos excelentes, seguidos de interrupções bruscas, cruzamentos hostis, sinais de que o ciclista ainda é visto como exceção. A mensagem implícita é clara: “pedale, mas por sua conta e risco”.
Ainda assim, basta um domingo de Eixão fechado para perceber o potencial latente. A cidade muda de ritmo. O espaço se humaniza. O que era trânsito vira encontro. Não se trata de criar algo artificial, mas de reconhecer algo que já funciona quando vira prioridade.
Talvez o que esteja faltando seja alguém — ou alguns — que assumam essa pauta como bandeira central, não como apêndice simpático. Alguém que diga, sem constrangimento, que investir em esporte urbano é investir em eficiência, em economia de recursos públicos, em saúde coletiva e em uma cidade mais viva.
Quando imagino Brasília cheia de ciclovias, não penso em uma cidade perfeita. Penso em uma cidade que escolheu fazer sentido. Uma cidade onde se entendeu que mover pessoas é mais inteligente do que mover carros, e que cuidar do corpo coletivo começa pelo espaço que ele habita.
Talvez essa cidade ainda seja um sonho. Mas é um sonho curioso: ele não encontra inimigos. Só espera, há tempo demais, que alguém resolva levá-lo a sério.
Texto de Pedro Payne, publicado originalmente no Mobilidade Candanga, em 11/02/2026.



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